O individualismo e a clínica psicológica
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A sociedade contemporânea apresenta sua estrutura baseada em um ideário individualista que
vem se transformando ao longo dos anos. Essa estrutura apresenta características específicas
que constituem a noção de sujeito da sociedade. Inicialmente o ideal era de um eu puro e
interiorizado, já atualmente valoriza-se um eu exteriorizado e voltado para a auto-imagem de
si. Tem-se, porém, que essas características podem ser relativizadas quando trata-se de
questões de classe, tendo em vista que a disseminação do individualismo é vivida de forma
variada pelas diferentes classes sociais. Para as classes populares a liberdade ofertada pelo
individualismo parece ser relativa e vivenciada mais como uma dificuldade do que como uma
vantagem. O individualismo tem por base um padrão burguês e toma-o como critério de
normalidade, naturalizando-o. As especificidades do Brasil não podem ser desconsideradas.
Tendo em vista que o modelo individualista é produzido inicialmente em países ricos, deve-se
atentar para as diferenças marcantes de um cenário periférico e repleto de desigualdades
sociais, como o Brasil, quando pretende-se importar esse tipo de modelo. A psicologia clínica
emerge como prática profissional em um contexto individualista e este influencia de várias
formas a noção de sujeito psicológico, produzindo, por vezes, uma prática descontextualizada
e com bases naturalizadas. A importação de teorias psicológicas de países desenvolvidos, por
vezes, desconsiderou especificidades da realidade brasileira, o que comprometeu o sentido da
clínica em nosso país. Em diversas práticas clínicas o individualismo parece ser reforçado e a
prática fica comprometida, principalmente em contextos menos favorecidos, pois o sujeito
nem sempre é compreendido em sua relação com o contexto histórico e social. É esse tipo de
prática sobre a qual deve-se refletir e promover transformações para que a psicologia ofereça
uma clínica contextualizada e abrangente aos diversos setores da sociedade sem estigmatizar e
patologizar questões com raízes sociais e históricas. Deve-se pensar em uma prática que tenha
compromisso social e seja atualizada, revendo teorias fundadas há muitos anos e cristalizadas
em seus teóricos fundadores. Em uma perspectiva da clínica psicanalítica, tem-se que talvez
seja preciso retornar criticamente a algumas propostas de Freud, relembrando aspectos que
parecem ter sido deixados de lado por seus seguidores, como o caráter construtivointerpretativo
da psicanálise e sua relação inseparável com a psicologia coletiva. Mas torna-se
necessário, também, rever a teoria em função das novas formas de subjetivação da
contemporaneidade. É nesse caminho que se propõe uma revisitação à psicanálise freudiana,
visando mudanças em suas práticas clínicas para ampliar sua eficácia, abrangendo as camadas
populares da sociedade e cumprindo uma função social maior.