Gênero, intersexualidade e clínica
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A intersexualidade emergiu como objeto de estudo dentro dos estudos feministas
(MACHADO, 2006). Atualmente, é também tema dos estudos de gênero, sexualidade e
corpo. Pesquisas sobre os sujeitos intersex suscitam questionamentos sobre a clássica
premissa de que o sexo é natural e de que o gênero é efeito do sexo que é um dado biológico,
na qual se funda a teoria feminista clássica. Movimentos políticos intersex empregam o termo
“intersex” para designar pessoas que possuem corpos que não se enquadram nas concepções
vigentes sobre como deve ser o corpo masculino e feminino (PINO, 2007). Os indivíduos
intersex também são objetos de estudo das Ciências Biomédicas que compreendem suas
variações corporais como Anomalias da Diferenciação Sexual. As intervenções médicas têm
se limitado a realizar a cirurgia de “correção genital” e a medicalização, de modo a adequar os
corpos a um dos dois gêneros normativos disponíveis em nossa sociedade. Os estados intersex
são vistos como um problema a ser corrigido numa lógica cultural biomédica de regulação
dos corpos que concebem o sexo como dicotômico (masculino e feminino) e restringem as
identidades de gênero ao binarismo homem-mulher e as identidades sexuais a uma suposta
coerência entre corpo sexuado, práticas e desejos. Enquanto o modelo biomédico considera os
estados intersex como uma anomalia, as militâncias os compreendem como variações da
norma (da concepção dominante que provém do modelo biomédico) e reivindicam a
possibilidade de existirem como tal sem serem patologizados (MACHADO, 2006). O objetivo
desse trabalho é construir reflexões sobre o debate natureza/cultura e sexo/gênero a partir da
experiência corporal das pessoas marcadas como intersex para respaldar uma prática
psicológica menos normativa e sexista com as identidades de gênero. A teoria queer
problematiza as exigências sociais sobre como devem ser homens e mulheres, coloca que
essas identidades não são “naturais” e, sim, produtos de ideais regulatórios que regem sua
construção (PINO, 2007). Novas subjetivações transcendem o modelo binário de sexo/gênero
sinalizando a possibilidade de criação de novos modelos. Cresce o número de pessoas que
vivenciam conflitos em relação à sua identidade de gênero e sexual, que não se enquadram no
binarismo homem-mulher e aumentou a visibilidade política dessas pessoas. As discussões
psicológicas não estão acompanhando os novos debates das teorias de gênero e corpo.
Existem poucos trabalhos de Psicologia que têm como objetivo pensar numa clínica para
essas novas demandas identitárias. Esse estudo visou ponderar sobre a construção de uma
clínica psicológica mais tolerante com as identidades de gênero, que contribua para que o
sujeito tenha autonomia e seja agente de sua realidade e identidade, para que possa participar
das decisões sobre o seu corpo e seu gênero, mesmo que isso implique em não seguir a ordem
prevista da seqüência sexo-gênero-desejo.