Até o osso: fome, ideologia e identidade no Brasil
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Abstract
Este trabalho busca investigar as dimensões psicanalíticas e ideológicas do
fenômeno da fome no Brasil contemporâneo. Partimos da compreensão de que pensar o
vínculo entre sujeito e alimento é também pensar o próprio sujeito e suas formas de estar
no mundo, de experienciá-lo e, de certa forma, de digeri-lo. Sendo assim, buscamos, no
capítulo 1, conceitualizar e concatenar os conceitos psicanalíticos que estão à base das
discussões propostas, a saber, o laço social e a identidade, ambos à luz da alimentação.
Ainda neste capítulo, discorremos sobre os fatores de miscigenação e regionalização que
compuseram a organização da culinária do país, desvelando o processo traumático de
colonização e a busca pela (re)construção identitária operacionalizado por essa dinâmica.
Essa discussão continua no capítulo 2, com maior ênfase nos efeitos da colonização na
formação da cultura alimentar e as notícias sintomáticas da repercussão desse processo
no campo social brasileiro. Esse eixo nos elucida como as tendências alimentares
encontradas no Brasil fazem parte de uma mesma lógica ambivalente, que, ao tentar
englobar e atualizar as raízes identitárias daqueles que puderam resistir à colonização,
acabam por ocultá-las sob a identidade unificante que denominamos de brasileira. Por
fim, no capítulo 3, nos havemos com as faces da fome na atualidade, analisando seus
entraves políticos e ideológicos através de uma Análise do Discurso dos principais marcos
de avanço e combate à fome na última década (2010-2022). Destacaram-se, nessas
análises, o caráter cínico, individualizante e paranoide das narrativas que permeiam os
debates políticos sobre a fome hoje. Essa trajetória nos conduz não apenas à compreensão
dos limites das práticas psicanalíticas, mas também a questões muito mais amplas e
herméticas do que a direção do tratamento. Vamos propor, com isso, que a criticidade da
angústia instaurada pela fome parece elevar-se ao ponto de não conseguir mais operar
como um motor dos processos de simbolização, distanciando-se, assim, de qualquer
possibilidade de análise. Diante desse cenário, se instaura a demanda de que a Psicanálise
tome para si o desafio de historicização dos ossos de sua teoria, dialetizando-se enquanto
agente teórico capaz de competir com as hegemonias eurocêntricas, neoliberais e fascistas
a partir das quais o país se orienta politicamente na contemporaneidade.