Ambivalências e sentimento de culpa na vivência da maternidade contemporânea

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Embora tenham passado a ser questionadas nas últimas décadas, a ideia de amor materno incondicional e a visão da mãe ideal, responsável pelo bem-estar psicológico e emocional da família, ainda são bastante presentes na literatura e no senso comum. Somando a isso o fato de que as mulheres possuem hoje outros interesses e desejos que não os ligados exclusivamente à maternidade, essa visão contribui para aumentar angústias, sentimentos de culpa e sofrimentos psíquicos decorrentes das vivências da maternidade. Na sociedade contemporânea, ganham destaque valores como liberdade, exaltação do Eu e satisfação imediata – contraditórios com o discurso materno predominante, que prioriza o altruísmo e a satisfação do outro -, o que também contribui para despertar sentimentos ambivalentes nas mulheres. Nesse sentido, este trabalho procurou investigar, a partir da análise de sonhos e falas de mães e gestantes, o fenômeno da maternidade na sociedade atual. Para tanto, iniciamos apresentando estudos que questionam a ideia de um amor materno inato e defendem que ele se trata de uma construção social. Em seguida, discorremos sobre diferentes visões de psicanalistas que, ao atribuir à mulher a responsabilidade pelo desenvolvimento psíquico e emocional dos bebês, acabam por reforçar as angústias com que as mães se deparam. Na sequência, é abordada a ambivalência afetiva e o sentimento de culpa materno, demonstrando que a ambivalência, embora seja parte constituinte do ser humano, representa mais um fator gerador de culpa para mães. O terceiro capítulo introduz a teoria psicanalítica a respeito dos sonhos, para em seguida demonstrar a articulação dos conceitos apresentados anteriormente com relatos de sonhos recebidos por meio de formulários. No capítulo final, são analisadas entrevistas realizadas com duas das respondentes dos questionários, com a finalidade de aprofundar a compreensão a respeito das vivências, angústias e desejos da maternidade. Dessa forma, foi possível identificar diversos fatores que perpassam a maternidade, como sobrecarga, exaustão, desejos por liberdade, conflitos com a própria mãe, autocobrança etc. Ao final, o que se observa é que, mesmo diante de dificuldades, perdas, adaptações, conflitos de sentimentos e acúmulo de tarefas, o desejo de ser mãe ainda prevalece entre as mulheres. Legitimar os sofrimentos que decorrem da conciliação de seus variados papéis, desconstruir representações idealizadas acerca da maternidade e instituir redes de apoio efetivas são tarefas que podem contribuir para que a maternidade seja vivenciada de uma forma significativa e psiquicamente saudável.

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