Da teoria a prática: experiências no estágio em psicologia organizacional do trabalho
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O Centro de Formação de Psicólogos – Cenfor faz parte da estrutura
organizacional do Centro Universitário de Brasília – UniCEUB como unidade
funcional do Curso de Psicologia, área da Instituição que coordena os estágios
supervisionados. Os estágios em Psicologia se prestam a atender diretamente pessoas
e organizações/instituições da comunidade do Distrito Federal. A finalidade desta
unidade institucional é beneficiar aqueles que não possuem recursos financeiros ou
que não têm acesso livre ao atendimento psicológico particular. Em consonância
com as regulamentações da Lei do Estágio (Lei n.º 11.788/2008), as atividades no
Cenfor são supervisionadas por professores-orientadores em todos os setores e
durante o processo de atendimento. Além disso, com vistas a assegurar seu adequado
andamento, as atividades também seguem as resoluções do Conselho Federal de
Psicologia (CFP) para registro documental (Resolução CFP nº 1/2009), para
produção de documentos (Resolução CFP nº 7/2003), o Código de Ética (Resolução
CFP nº 10/2005) e também a Resolução que institui a Consolidação das Resoluções
do Conselho Federal de Psicologia (Resolução CFP nº 3/2007).
O encaminhamento da clientela ao Cenfor de Psicologia ocorre por meio de
instituições, empresas, hospitais e escolas que conhecem os trabalhos desenvolvidos,
além da possibilidade de o interessado solicitar seu próprio atendimento. O
atendimento se dá nas áreas de atuação do Psicólogo e é feito por meio de Setores
Especializados: ● Setor Clínico Infantojuvenil, com atendimentos psicoterápicos individual e em
grupo, estimulação precoce, orientação a pais e a profissionais não psicólogos e
de diagnóstico. ● Setor Clínico Adultos e Idosos, com atendimentos psicoterápicos individual e
em grupo, de casal, sexual, familiar, e pacientes psiquiátricos; orientação
psicológica a cuidadores e profissionais não psicólogos e de diagnóstico. ● Setor Hospitalar, com intervenções em UTI, enfermarias e ambulatórios, serviços de reabilitação, atendimento a pacientes institucionalizados com transtornos psicológicos graves. Setor de Consultoria Escolar, nas áreas de inclusão escolar e relações interpessoais. ● Setor organizacional, com gestão de pessoas, comportamento organizacional e saúde no trabalho. ● Setor Psicossocial, com diversos atendimentos e intervenções junto à população em situação de vulnerabilidade (vítimas de violência doméstica, encaminhados pela justiça, usuários de drogas lícitas e ilícitas). ● Setor de Triagem e Psicodiagnóstico, com atendimento inicial de triagem para os demais setores e unidades, psicodiagnóstico solicitado por outros profissionais e instituições e orientação vocacional e profissional. Supervisão de estágio em diversas áreas da Psicologia Organizacional e do Trabalho. Ao longo de 25 anos de supervisão em Psicologia Organizacional e do
Trabalho (POT), inúmeros campos foram atendidos e diversos trabalhos foram
realizados na área de Saúde e Qualidade de Vida no Trabalho, Preparação para
Aposentadoria, Diagnóstico Organizacional em diferentes temáticas (clima
organizacional, satisfação e comprometimento no trabalho, motivação para trabalhar
entre outros), Modelagem e Implementação de Processos de Gestão de Pessoas com
a criação de rotinas para todos os subsistemas: recrutamento e seleção, treinamento e
desenvolvimento, avaliação de desempenho, implementação de Sistemas de Gestão
por Competências, elaboração, execução e avaliação de Projetos de Treinamento e
Desenvolvimento, análises e revisão de rotinas, técnicas e práticas voltadas para o
Recrutamento e Seleção de Pessoas, incluindo a Avaliação Psicológica para avaliar
potencial para o cargo e também atendimentos relacionados à Orientação
Profissional.
As atividades de estágio são muito importantes para que o egresso possa
iniciar sua carreira profissional com mais segurança e desenvoltura profissional.
Portanto, esse é um momento crucial da formação profissional, uma vez que
viabiliza ao estagiário aplicar conhecimentos adquiridos em sala de aula. Nesse
contexto, é importante destacar que, além de ser uma exigência da legislação, o
acompanhamento pela Instituição de Ensino Superior (IES) é fundamental para o
aprimoramento profissional na área de estudo em que o estágio ocorrerá. Caso não
haja o acompanhamento de uma IES, o estágio corre o risco de ter seu objetivo desvirtuado e se transformar em mais uma forma de trabalho precarizada em que se
valoriza apenas o baixo custo.
Por isso, a etapa de acompanhamento é crucial para o bom desenvolvimento
das atividades de estágio e, naturalmente, para o desenvolvimento profissional do
estudante. Embora se considere que já há um formato único para a realização da
supervisão, para que a etapa de acompanhamento ocorra de maneira exitosa, é
preciso que bastante atenção seja dispensada na etapa de planejamento (BorgesAndrade & Freitas, 2020). Em seguida, começa a etapa de acompanhamento das
atividades que serão executadas em campo. No Cenfor, a supervisão dos estágios em
POT ocorre semanalmente com grupos de até 12 alunos.
Nesse formato, os estagiários são convidados a relatar como suas atividades
transcorreram ao longo da semana e é adotado um formato misto de reuniões com
encontros coletivos mesclados com acompanhamento individuais de atividades em
cada campo. O relato do estagiário não deve ser meramente descritivo, mas também
articular teoria e prática. Para tanto, em geral, reserva-se a primeira parte, no início
do semestre letivo para o resgate da literatura e para o debate de temas que serão
objeto de estágio entre os alunos. Esse é um momento importante para se identificar
as principais lacunas em conhecimentos e competências dos estagiários e fazer uma
última preparação para a entrada no campo profissional.
Ouvir o relato dos colegas sobre o que tem sido realizado no campo de
estágio é igualmente importante nas reuniões de acompanhamento. Além de
desenvolver a habilidade de escuta, possibilita a superação de desafios a partir da
troca de experiências entre os alunos. Conforme é ressaltado no Manual de
Orientação para Docentes-Supervisores de Estágio em POT, essa diversidade nas
supervisões coletivas contribui para o desenvolvimento de competências afetivas,
éticas e sociais, bem como para o amadurecimento do aprendizado individual, e
ainda permite aumentar a transferência de aprendizagens para diferentes contextos
(Zerbini et al., 2020). Portanto, além do relato bem estruturado que, como dito, deve
ser articulado com a teoria, a participação bem colocada durante a supervisão
também é objeto de avaliação dos supervisores.
O início das atividades práticas ocorre com um primeiro diagnóstico do
campo de estágio realizado na organização a ser atendida. Esse diagnóstico, que visa
subsidiar o plano de atividades e/ou a elaboração de um projeto de intervenção, deve
reunir documentos para o planejamento das atividades, descrição dos objetivos e da
metodologia, e as tarefas que deverão ser ênfase do estágio em questão. O plano ou
projeto de intervenção é construído com o auxílio do supervisor e depois validado
pelo preceptor em campo. Ao longo do semestre os alunos são orientados a fazer
pequenos registros semanais das suas atividades e, ao final, esses apontamentos irão
compor o relatório de campo a ser entregue para os preceptores. O relatório final é,
portanto, um documento em total consonância com o plano inicialmente elaborado
que registra o que foi possível realizar ao longo do semestre, o que não foi e o que
impediu a realização daquilo que foi previsto. É nesse relatório que os alunos
sistematizam como suas intervenções, pautadas nas teorias psicológicas, auxiliaram
na solução do que foi diagnosticado inicialmente.
De forma articulada com a disciplina de Psicologia Social, as primeiras
experiências de análise do campo e o planejamento de intervenções no campo de
POT ocorre cerca de ano antes da atividade de estágio (ver coletânea de casos
organizadas por Queiroga et al., 2019). Assim, pode-se perceber que o atendimento
que ocorre nos campos de aplicação da POT no Cenfor, ao mesmo tempo que é
espaço para transferência de conhecimentos e desenvolvimento de competências
entre os alunos, é também campo de coleta de dados e informações que
retroalimentam o ensino. É a partir dessa perspectiva que este livro pretende
sistematizar as práticas conduzidas e supervisionadas com os alunos desse campo de
atuação. Sabemos que outros esforços tem sido empreendidos no sentido de
subsidiar intervenções (ver por exemplo Pérez-Nebra, 2021). Assim, esperamos que
esse material venha a somar no apoio para outras intervenções semelhantes àquelas
que serão relatadas aqui e também sirvam para reflexão crítica do ensino em
Psicologia Organizacional e do Trabalho.