Sobre o discurso médico e bolsonarista: uma distopia à la brasileira
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O objetivo deste trabalho é discutir algumas das articulações entre os discursos médico
e bolsonarista. Trata-se de refletir sobre o papel da medicina no social e seus impactos nos
modos de subjetivação contemporâneos, através de uma pesquisa qualitativa baseada no
método de Análise do Discurso. Os principais dispositivos teóricos utilizados foram a teoria do
discurso de Laclau e Mouffe, estudos acerca do discurso bolsonarista e a teoria psicanalítica,
em especial a lacaniana. Foram analisadas matérias de revistas médicas e falas de representantes
de instituições médicas de referência – como o Conselho Federal de Medicina, a Associação
Brasileira de Psiquiatria e a Associação Médica Brasileira –, assim como postagens e
comentários do grupo de Telegram "Médicos Pela Vida". Com base nas análises realizadas,
pode-se dizer que o núcleo duro da articulação entre os discursos médico e bolsonarista é o
significante-vazio "verdade", através do qual é construída uma relação de oposição, em que, de
um lado, está a "verdade", e de outro, a "política", a "ideologia" e a "corrupção". Assim, ao
buscar sustentar seu estatuto de veracidade, o discurso médico articula-se a múltiplas formações
simbólicas de caráter conservador e reacionário, como o discurso da "anti-ideologia", da
anticorrupção, e do anticomunismo, ao mesmo tempo em contribui para a construção de uma
fantasia social de uma sociedade harmoniosa regida pelo "consenso". Essa construção
simbólico-imaginária baseia-se na negação do político enquanto dimensão ontológica do social,
e no ocultamento do Real disruptivo que emerge a partir do político. Da confluência entre o
discurso médico e outras construções simbólicas com as quais este se articula, emerge o sujeito
do consumo, que mediante o "medo da morte" e o contexto de objetificação do outro, busca
assujeitar-se ao saber médico. A identificação com o discurso médico oferece, por um lado,
certo reconhecimento social e conforto diante da incerteza do social, mas por outro lado, conduz
a um empobrecimento dos processos de simbolização e a uma precarização dos laços sociais.
Por fim, o discurso médico parece contribuir para um processo de desdemocratização através
do engendramento de subjetividades pouco inclinadas para o exercício democrático, o qual
demanda uma certa abertura para a alteridade e para o pluralismo político.